A tocha olímpica, seu signifcado e o contexto. #Rio 2016

A 10 dias da cerimônia abertura dos Jogos Olímpicos 2016, no Rio de Janeiro, parece-me que o alvoroço está tomando corpo. Penso eu que, o tão aguardado evento global, de proporções estratosféricas, teve que dividir o podium com  acontecimentos políticos e econômicos pelos quais nosso país tem passado até então. 

Um pouco triste este fato, porque apenas trinta e um países tiveram a honra de sediar uma olimpíada na era moderna. Como o trigésimo segundo país a “guardar a tocha olímpica”, o orgulho deveria ser a forte marca do acontecimento. Não é isso o que tenho notado!!! Grande parte das notícias que tenho lido não são, necessariamente, positivas.

Lembro-me de quando eu era pequena e passava horas e horas no ginásio do colégio treinando ginástica olímpica. Uma paixão que teve início aos 7 anos. Nossa! Eu amava participar das competições organizadas pelo colégio na semana olímpica, um evento anual com abertura oficial, desfile das equipes e tocha olímpíca.

Relembrando esta época maravilhosa da minha vida, esta semana pensei em escrever algo sobre o grande acontecimento que fará com que os olhos do mundo virem-se para o Brasil. Eis que, me deparo com um texto belíssimo escrito por minha irmã Jaqueline Borges, mestre e instrutora de Yoga e terapeuta Ayuverda e uma pessoa iluminada. Sem cortes ou edição, compartilho contigo esta visão sensacional sobre a sagrada tocha olímpica:

“Quero esclarecer, em primeiro lugar, que não tenho nada contra a Tocha Olímpica e seu verdadeiro significado. Só acho que esta linda e tradicional cerimônia está fora de contexto. Vou explicar porque.

O Fogo era sagrado para muitas civilizações antigas, inclusive os gregos, que em sua tradição acreditavam que o fogo foi entregue aos mortais por Prometeus, que o roubara de Zeus, e uma chama era mantida acesa permanentemente no Templo de Olímpia.

Neste Templo eram oferecidos sacrifícios à Zeus, e atletas eram convidados à correr com uma “tocha” na mão. O vencedor teria a honra de acender a chama do altar. Nascem assim as primeiras tradições. Isso é lindo e sagrado. Traz a intenção colocada na ação, e alimenta o respeito à tradição, à origem de todas as coisas.

Em 1932 a chama voltou a fazer parte das cerimônias dos jogos Olímpicos da Modernidade, e uma citação de Coubertin (criador dos jogos modernos) foi apesentada:

“Que a Tocha Olímpica siga seu curso através dos tempos, para o bem da humanidade cada vez mais ardente, corajosa e pura”.

Percebam a grandiosa intenção representada neste simples gesto.

E porque a tocha é carregada por milhares de pessoas no país sede dos jogos na atualidade? Por que na Grécia antiga, mensageiros eram enviados por todas as cidades anunciando os jogos e proclamando a “trégua sagrada”, período em que todas as guerras cessavam por questão dos Jogos.

A Chama de Fogo, a Tocha, o Revezamento da Tocha, e os Jogos Olímpicos, são tradições sagradas, que buscam perpetuar o Divino, a Paz entre os homens, e o Respeito mútuo.

É aqui que a Tocha, atualmente, me parece estar fora do contexto.

Ao lado da notícia de revezamento da Tocha, aparecem também as notícias de ações de segurança anti-terrorismo. A cada passo do revezamento, acontece um atentado em alguma parte do mundo, refugiados são encontrados mortos, homens insanos tentam governar o mundo, a África continua cruelmente pobre, o extremismo parece ganhar território, enquanto as nações se esforçam para fechar-se em seus muros de isolamento.

Um cenário de total desarmonia e desequilíbrio. Então para que servem os jogos hoje? Para que colocar a tocha nas mãos de milhares de pessoas? Se isso não tiver um significado para toda a humanidade, não se justifica.

Enquanto milhares de atletas participam dos jogos, sem a mínima condição de ganhar, mas desejando apenas vivenciar a honra desta competição tradicional e sagrada, delegações de países ricos, fazem uso de substâncias diversas para garantir a vitória de seus atletas, e um bom número de medalhas.

Lembro aqui que, a medalha do vencedor na Grécia Antiga era a honra de acender a chama do altar. Honra era a medalha. Talvez aqui estejamos fora do verdadeiro contexto da Chama e da Tocha Olímpica. Não temos que valorizar o vencedor, mas apenas a vitória conquistada. E o vencedor conquistaria a honra de levar para sua casa uma chama da Pira Olímpica, sob a responsabilidade de mantê-la acesa permanentemente, para sempre, repassando essa responsabilidade para seus descendentes.

Três lugares no pódium sim, mas a mesma medalha para todos. Utopia? Sonho inatingível? Pode ser, mas o criador dos jogos modernos foi também um sonhador utópico, desejando que a tocha levasse o bem para a humanidade, cada vez mais corajosa, ardente e pura. Precisamos aprender a colocar a pureza, a coragem e a força ardente em todas as ações da vida.

Se você escolheu ser médico, professor, advogado, carteiro ou atleta, cada ação do seu dia deve ser pura, ardente e corajosa, para que ela seja benéfica a toda humanidade.

Simplicidade e verdade, não é utopia, é o caminho da realização e da paz interior. Mas não estamos querendo paz interior apenas. Queremos a medalha que prova que um é melhor que o outro.

Utopia é você fingir que está fazendo o seu melhor, e acreditar nisso. Utopia é você fingir que tudo está bem, e acreditar nisso. Utopia é você fingir que não sabe fazer melhor, e acreditar nisso. Utopia é a forma como estamos empurrando a vida com a barriga, e sonhar é a única maneira de ser real”.

Texto de Jaqueline Borges. Instrutora de Yoga, Mestre em Yoga, Terapeuta Ayuverda

Espero que este texto o toque tão profundamente assim como me tocou.

Abraços e até a próxima.

Luciane Borges

2 comments on “A tocha olímpica, seu signifcado e o contexto. #Rio 2016”

  1. Sergio Schmid disse:

    Ótimo texto. Infelizmente cada ano que se passa estamos mais distantes da história e dos elos que nos ligam a ela. A humanidade não para de evoluir tecnologicamente e a regredir no quesito, amor , respeito , honestidade.

    Eu acho as Olimpíadas o melhor evento do mundo. Tento ver tudo o que posso, menos os esportes que não considero Olímpicos como por exemplo, o futebol, rugby , hipismo , e outros surreais. Isso talvez seja devido a ter sido nadador e lutador de judô. 🙂

    Infelizmente o Rio, aonde nasci e moro, vai viver um grande teatro nos próximos dias. Um teatro que só faz bem a quem não é daqui, que vai vir , passar uns dias, gastar uma grana e sair fora. Resta a nós cariocas, os otimistas e os não tanto, como eu, ver o que vai ocorrer após a festa.

    Infelizmente as previsões não são nada otimistas para o futuro da cidade pós olímpica.

    1. Sérgio. Sempre trazendo comentários valiosos, para enriquecer a reflexão! Gratidão imensa por suas palavras. Abraços. Luciane

Deixe seu comentário: